sexta-feira, março 02, 2007

"...porque a verdadeira poesia é um processo."

Feito um tirante de alma arrancou dos pés as botas e jogou para trás das costas sem olhar quantas estradas a sola pisou, nem para lembrança guardou. Despiu-se inteiro, primeiro rasgou as calças com as unhas afiadas com toda fúria de sentir-se livre e leve, na seqüência atirou a camisa ao alto, qual caíra desajustada e no chão se conformaria, não haveria mais, nunca mais um corpo suado do trabalhador que só pensa, para vestir. Triste. Encontrou na pele o retrato sem esconderijo de um homem triste. Tinha em seu semblante o cansaço de trinta e poucos anos de rejeição, do mundo com ele, dele com todo mundo. Era rejeitado e se rejeitava por inteiro, aquém de ver o mundo já era largado. Triste. Não enganava nem o ar que alimentava seu todo, dizia ser triste. Triste e amargo. Não havia um paladar que pudesse aos elogios do bom sabor, como não poderia nenhum ato, palavras e semblantes. Não era nem lado esquerdo, tão menos o direito, não tinha lado, era inválido. As paredes faziam companhia e fazia-o sentir, sentir como se fosse um móvel, imobilizado que pensa contra senso arquitetando apenas a estrutura do imóvel. Que por parte, participava da arquitetura do mundo. Que por inteiro, era a base do seu desespero. Ele era triste por que era vivo, e ser vivo era a única forma dele ser triste. Mas ele só queria ser livre, por isso andava nu, e morrer não era a forma correta de livrar de si mesmo, era ímpio. Saberia que do pó viestes e do pó serviria apenas talvez ao agreste. Estava cansado de contribuir, inventar e nada de algo ou alguém o consumir. Seus pensamentos eram reais e para ele tudo era irreal, e o que é imaginário não passa disso. Triste. Por ser assim era só, de só somente valeria o hiato, ele precisava cuspir, arregaçar sentenças da forma real que era o mundo. Mas para o mundo era um pobre louco, e da força união o mundo era sua aspiração. Porque sabia separar o todo de tudo. Porque sabia separar os homens do homem, os cavalos do cavalo, as mariposas da mariposa. Só porque ele sabia que a idéia do Outro é diferente da idéia do Mesmo. E ele não era nenhum dos dois, era a meia face e não se completava em nada, mas observava a forma concreta e abstrata de se fazer face. E fez dele com ele apenas alguns cálculos. Tinha formas variadas de se enquadrar, havia em seu corpo ângulos geométricos, mas de medidas exacerbadas. E por isso este mundo não caberia em seu umbigo e nem ele no umbigo do mundo. As pessoas temem ao terror de sair por aí, desajustando o que é realmente justo para colocar a justiça validar e não ser apenas um nome.Os ponteiros registram o tempo, todos têm medo de não acompanhar a volta do relógio, tem medo de não cumprir ordens. Mas ele de nada temia. Fazia manifesto terror, apavorava - sem roupa - que ser justo é isso. Ele chorava mais que uma mulher romântica e era último anti-romântico. Balbuciava seu silêncio e era o êxito de qualquer fala. Dizia pisar na terra de sensíveis, mas era supra-sensível. E por isso era triste. Triste, mas seu segredo era único, simples e ignorado. Porque conhecia a essência. Conhecer a essência é conhecer a justiça, que do contrário prevalece no nível das aparências, ele até andava nu - para sentir-se leve. As pessoas vivem de aparências que são o modo como estes percebem através dos sentidos (sem sentido). Mas ele sabia que antes dos homens serem homens cada qual com sua crença, estilo, gozo, gostos, há uma só idéia se ser homem, aquele que chora e sabe antes do corpo da alma que corre perigo. Ele vive no mundo real, e o mundo real não assiste tv-ilusão, não atende por máquinas e desconhece voz e mãos de robôs. Os habitantes da terra criaram regras em argumentos e legalizaram a vida em leis, e a lei é um poder e os poderes possuem bolso. Ele era pelado até no inverno.A solução estava nos soluços, porque sabia que antes de tudo era o Caos, e do Caos veio a Ordem. Da ordem nasceu a prisão do homem consigo algemado com todo resto. Não sabem da justiça porque fugiu antes mesmo de conhecer, e dos argumentos argumentou a insensibilidade de sobreviver. Triste. Não sabe se encontra no início, no meio, ou no fim do mundo. Ele não anda, vive como um móvel que pensa uma samambaia que vê e sobrevive ainda. Mas está ganhando força elástica para saltar do pico com um tampão que afoba tudo, estoura poços de água para ver como tudo surgiu como tudo voltará. Não como simulacros de fim do mundo em guerras e violências gratuitas realizadas por mãos e regando de sangue alguns egos, mas voltar o mundo do Caos verdadeiro que ele só compreende.Esquecer que existe estrada, esquecer que existe entrada, esquecer que existe posse, esquecer a ida e acreditar no Retorno. No grande Retorno para alguma salvação.... e quando chegar ao fim, ele será feliz, avistará a porta e a porta será a entrada do final real. E lá, será a saída do novo começo. E ele sairá feliz.
*
*
*
Fim.

12 comentários:

Carlos disse...

Dany, estava despretenciosamente olhando algumas coisas pelo Google e, por sorte (?), vim parar aqui. Menina, você escreve muito bem! Eu também sou poeta e fico embasbacado quando vejo gente assim, da minha idade, da mesma geração, não só dando valor a esse tipo de coisa mas praticando com excelência. Você está de parabéns. As vezes eu acho que nós ficamos muito soltos, perdidos, cada um em seu canto, e isso dificulta nosso crescimento poético. Vamos trocar alguma coisa, me adiciona no msn ou me manda um e-mail. Beijos.

cjader@gmail.com
carlos_jader@hotmail.com

Aroeira disse...

muito muito muito bom. a cada dia que passa. eis algumas pérolas:

"retrato sem esconderijo de um homem triste."

"arregaçar sentenças da forma real que era o mundo."

"Só porque ele sabia que a idéia do Outro é diferente da idéia do Mesmo."

"Triste, mas seu segredo era único, simples e ignorado. Porque conhecia a essência. Conhecer a essência é conhecer a justiça, que do contrário prevalece no nível das aparências"

"e quando chegar ao fim, ele será feliz, avistará a porta e a porta será a entrada do final real. E lá, será a saída do novo começo. E ele sairá feliz."

Luiza Lisboa disse...

Dani!
Eu já te falei que fico imaginando cada detalhe quando leio seus textos? Já falei que até fecho a porta do quarto pra ninguém atrapalhar?
Muito bom!!!
Beijinhos!

Thiago Quintella disse...

Uma filosofia que nos encafifa.. ordem , caos realidade... putz... eterno recomeço!

Anônimo disse...

O homem triste leu, chorou muito e entendeu tudo.
Mas depois de tudo isso, finalmente ficou feliz.
E ainda está.
Por enquanto.
Encantado e Pessimista.
Esperando o próximo vôo e o próximo abismo (ou vice-versa).
Mas feliz.

Cidadão Cão disse...

Psiu.

Marden disse...

Como o estranho
no caminho o nu
vestiu-se de verborrágicos fins
impressionantes trajes de gula
desarte do desejo incólume
estátua em seu louvor
concreta homenagem
o mais perfeito
presente de grego
com dentes de marfim
no fim
o mesmo


...Mas sim! Faz todo sentido sim, Dany! Como quando Torquato disse numa carta escrita no hospício: "Deus está vivo! E foi Caetano quem viu primeiro!" O Villaça, ou melhor, o anonimato do crítico fantasma desafina o coro dos contentes, ganha voz e tocamos o splim aqui, em suas palavras agora.
Seriam sujos como os velhos sapatos de Van Goh...... lido por olhos tristes de um bicho manso, de uma mordida calma, de uma ferida banza, de uma felicidade triste de poeta assim... sem pressa.

Como quando o quê daquele poema que espera, na porta de saída, com um sorriso nas mãos e um silêncio grávido de sons. Feito fosse um cais onde caíssem passos, mas que iriam embora com o silêncio que acabou, enquanto o poema esperava entre o fundo e a superfície.

julio disse...

sem ar para este texto.


talvez as melhores letras que minha alma já expermientou.


juliocesarbueno@gmail.com

julio disse...

sem ar para este texto.


talvez as melhores letras que minha alma já experimentou.


juliocesarbueno@gmail.com

julio disse...

pois é, um processo.

Makely disse...

Estou abrindo um processo!
Beijos

Bernardo disse...

Muito bom :)

So um comentario de uma pessoa de longe.

:) Parabens moça :)