quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Fim do mundo




As corjas desprezaram a liberdade e doaram para as mãos dos astutos o sangue dos inocentes por uma razão pecadora. A razão foi o papel dado ao papel, o funesto dinheiro que funde as massas, é o fusível do mundo, comanda e funciona o nível de ares, de águas, de sangue e de barrigas cheias ou vazias. E tudo parte do principio da força maior, dos poderes aos comandos. Com longos discursos e rótulos, fazem promessas e improvisam em gravatas, graxas e perfumes de essência cara. Até um pingo de acetato da safra antiga na salada do pomposo valem mais, muito mais que vinte famílias necessitadas por uma colher de feijão com arroz. E toda palavra some feito dívida do palato ao prato, tudo se consome através da devastação de interesses para a construção de palácios e muitos palacetes, de toalhas de pele de leão, das torneiras de marfim e dentes de ouro dos grandes chefões. E as árvores acabaram e os leões foram extintos e as montanhas são só casca. E eles são bonitos e cheiram bem. É a cúpula da civilização. E todo mundo bate palma e todo mundo bate de frente da sentença da própria morte. Eles possuem o veneno de cegar e deixar mudos. E todo mundo fica cego e mudo. Assim fica o mundo, mudo e imundo. E cego ninguém enxerga que tudo já está cinza escuro, que tudo um dia acaba, o que inclui também as estações. As flores não vão colorir, os rios irão secar e seus parentes não vão resistir. O frio vai congelar o cérebro, o sol vai arrancar a pele e não terá água limpa para se lavar. E eu, e eu, eu não quero estar aqui, já separei a pólvora só vou escolher a hora e vou sumir.
A defesa decorre ao que pode ter e isso sempre foi o poder. É a falta de amor do contraste da vida, onde era para haver democracia para construção da civilização passou a ser sempre e para sempre esta falida separação. E tudo acaba, e eu, e eu, eu não quero estar aqui para ver mais o que já não consigo crer.

(pausa)

Mas morrer sozinho não é complicado, a morte do mundo não pode ser arriscada. E se de repente o que fazia dos céticos mais sintéticos e por um milagre eles repartiram – se eu passar a crer - foi por causa da pregação de alguns artistas dos pensamentos que prometeram que da destruição nasceria à criação. Esta é a única esperança! E se por acaso todo meu desabafo quiser transcender, se a arte continuar ao lado esquerdo e toda prole do Universo dar os braços e com uma martelada destruirmos a “TV-ilusão”, quem sabe frente disso realmente começará de novo a nossa formação. Então assim, farei questão de estar aqui.

8 comentários:

Anônimo disse...

Mais de 24 horas de silêncio.

Palavras realmente fazem o mundo ficar mudo.

Anônimo disse...

Seu texto é bem pessimista.

Ainda bem.

Pois foi, e continua sendo, o otimismo - da religião, da filosofia, do progresso e da propaganda - que fez e faz do mundo esse sítio imundo em que vivemos.

Seu pessimismo é o combustível da desordem. Da resistência. Do "não quero", "não acredito", "não aceito".

Um pessimismo otimista, no fundo mais fundo. Afinal, o mais pessimista dos filósofos foi também o profeta que anunciou o nascimento do super-homem e da vontade de potência.

Essa vontade é o que distingue este primeiro do homem ordinário (quase sempre otimista, simpático e sorridente, que reza e agradece pela estabilidade medíocre de sua vida todos os dias, lê e crê nos livros de auto-ajuda e sonha em um dia vir a se tornar, por um milagre ou ganhando na mega-sena, o garoto-propaganda dos comerciais da novela das oito).

Seu pessimismo é lindo e comovente.
É forte e resistente.
É o que ainda nos move pra frente.

Por isso ele é ao mesmo tempo o mais romântico e desencantado.
O mais maldito e abençoado.

Que Nietzche, Bethoven e Leminski te abençoem e te iluminem nessa estrada de terra, esburacada, longa e que no final vai dar no nada.

E por que escolher essa estrada? Porque é a mais livre e bela. E afinal, o que importa da viagem não é o destino, nem a bagagem. Mas o viajar e a paisagem.

As mais lindas viagens e paisagens pra você em toda vida.

Diferentes e iguais àquela que foi vista da janela numa tela de aquarela.

Beijo.

Sergio disse...

olá, Dani!

Nem tudo o que vemos nos faria bem querer...mas faria bem ver tudo o que queremos.

um beijo

david santos disse...

Olá!
Adorei, seu texto pode dar a sensação de pessimista, mas não. Ele é rela.
Parabéns.

Makely disse...

Salve Dani! Lan House, correria, contatos, pré-carnaval, depois a gente se fala.
Beijos

Anônimo disse...

Hoje tô todo prosa.
Vou passar o dia todo com a tua poesia.

Teus escritos.
Teus achados.
De nós nascidos.
Que crescem,
se multiplicam,
e como tudo na vida, vão morrer um dia.

E se “o futuro a Deus pertence”
na arte do amor, Deus vira a gente agora.

Intenso.
Inteiro.
Infinito.
Insensato.
Absurdo.
Absorto.
Absoluto.
Absinto.

Que fica na gente mesmo quando vai embora.
Bendito é o fruto de qualquer amor que na arte da vida procria

em mensagens.
Em e-mails.
Em poemas.
Em canções.
Nas imagens.
Devaneios.
Paisagens e verões.

Teus fios em minha trama.
Teus trilhos em minha estação.
Tua alma em minha cama.
Teu corpo em minha oração.

Nossos filhos já vieram.
Vêm e vão assim naturalmente.
E virão outros que esperam.
No devir do tempo do sim. Pacientes.

Vou reler tuas palavras
E parir a paciência
Que é filha mais bonita do amor e da consciência.

Vou tentar fugir da métrica
E ousar matar a rima
Pra escrever assim, irregular e q u e b r a d a, a poética
de sonhar voar contigo naquela órbita redonda que a gente avistou lá de cima

desse mundo quadrado.
Desse dado não-jogado
que gira na mesa em roleta russa.

Desse jogo já marcado.
Desse povo cadeado
que tranca as portas das promessas nossas.

Não prometo nada agora.
Nem amor.
Nem rancor.
Nem minha fidelidade.

Nem todos os nossos planos.
Nem o resto dos meus anos.
Nem voltar pra sua idade.

As idades são feito rios
que sempre passam, mas ainda permanecem.
Vivem do devir do tempo e das correntes
das águas que escapam das mãos por entre os dedos.

A felicidade é feito o mar
Que das águas dos rios sempre se abastece.
E no desaguar das idades da gente
avisto o mar.
Azul.
Aberto.
Forte.
Liberto então de nossos medos.

VERIFIQUE.
VEJA E FIQUE.
VÁ E VEJA.
VEJA E VOLTE.
VOLTE E VENHA.
VENHA E FIQUE.

Além do ponto disse...

lindo. lindo.lindo.
adoro teus escritos e passei para deixar um abraço!

Anônimo disse...

Saudades do dia em que a última coisa que faríamos era nunca mais nos separarmos... saudades de você.