quarta-feira, maio 02, 2007

O início e o fim




Talho a própria vida
velo no túmulo o umbigo
alma e pés dormem unidos
(qualquer desafio, desfio)
Dissolvo angústia iluminada
em veros versos confessionais
os choros de agora nunca mais
só lido com sólidas juras, as indignadas.
O ser é o Não-Ser por reverso
que dos corpos os átomos são impressos
para o ciclo só é preciso um ninho
de placenta, palha ou barrinho
Da água ao carbono
todos elementos, as ligas...
E o ser vivo
aproveita
o ser bruto
para base e instrumentos
(alguns insultos)
A vida, toda vida...
se conta em histórias
e nenhuma memória é acesa
quando as cinzas estão presas
e todas estas demasiadas vidas
de involução, fenômenos e gentes
Se resume ao presumo
em obras materializadas
E são poetas estes que registram
a dor de não saber
(humildes)
e só saber a morte vívida
De todo átomo o que interessa
são combinados
para o papel
o papel de Ser-papel
aquele instrumento bruto
para o poeta vivo
Que conta nada
mas faz contas
de quantas vidas.


Na seqüência a conseqüencia:


Cuidado! Cuidado!
Estou embriagada
embriagada de palavras
são versos sem estrada
são versos sem entrada
estou estranha, perdida, falida
nas entranhas das sílabas
nos verbos das feridas
minha cabeça ferve
não tenho remédio
tenho febre de poesia
Meu sangue agora é molde
são legos de letras
encaixam entre dentes
mas fogem dos dedos
estou desconfigurada.
Tô bêbada! Tô bêbada!
Sem sono, sem choro, sem dono
sou cadela frígida
mas viro e lato vogais

ei! ai! au´s...

das noites e dos dias
Sou leiga destas letras
não confesso certeza
mas tenho destreza
e juro por deus que sou tão deus
de criar a vida
de criar o mundo
de criar o mito
desmentir a emoção
de criar qualquer razão
só com uma caneta
um papel e minha doença.

sou ateu picareta
deu's da pica reta



7 comentários:

Cida Almeida disse...

Menina, gostei demais da cadeia atômica de suas palavras. Voltarei para ler devagarzinho, devagarzinho...
Abraços.

rodrigo mebs disse...

estou perpelxo ao descobrir como é possível esbarrar na arte entre um bite e outro, nesta imensa aranha tecedora de uma teia que apilidaram de net! Parabéns!

Anônimo disse...

o início e o fim são apenas o resto do processo. o que já começou e ainda não terminou carrega o presente. o que existe. o que interfere no mundo. o início e o fim são o passado e o futuro. passado sem presente é a morte. futuro sem presente é delírio.
viva o meio. com os meios que dispuser. quaisquer que sejam eles. vale a pena.
vc sabe muito bem sobre o que estou dizendo.
bj.

everton disse...

Sorte não haver remédio para seu mal, pois este veio para o bem...

T +

Marden disse...

dizer o quê?
Escreve mais aí, ó!

Thiago Quintella disse...

as palavras são as que mais me inebriam tb... ser e não ser, reversos e anversos, nunca sei quando são!

Renato disse...

Quero beber desta bebida
Ser inoculado por este vírus
Arder na febre da tua doença
Há beleza na dor desta ferida
Que não cura, nem cicatriza
Sem ela a vida não é completamente vida
É só um crime que não compensa